"Eu te busco de todo o coração; não permitas que eu me desvie dos teus mandamentos." (Salmo 119:10)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Fique Sob o Sol da Toscana e deixe as joaninhas pousarem



Fazer escolhas, às vezes não ter escolha, ser aos poucos quebrada, desejar, sonhar, trair, ser traído, terminar, começar, planejar, recomeçar... É o ciclo da vida. Todos passam por isso um dia, e quem ainda não passou, não sei se digo que isso é bom ou ruim, porque às vezes dá uma leveza e sensação de liberdade, mas também não deixa de ter suas dores e dúvidas... Enfim, o importante é que amadurece e que pelo menos você tem história para contar e oportunidade para aprender o que é resiliência e esperança. Esperança do verbo esperar... Nunca antes tive que exercitar isso tanto quanto agora.


Sozinha por completo: em casa, sem nenhuma ligação, nenhuma conversa em qualquer aplicativo ou rede social (nem em grupos!), nenhum e-mail, nenhum vizinho amigo, nada para fazer, sem dinheiro, enfim: nada. A mais completa solidão e o mais completo ócio, decidi assistir um filme, era o que me restava, porque os livros não estavam me animando. Optei por um chamado "Sob o Sol da Toscana" (2003), cuja sinopse é:

Frances Mayes (Diane Lane) é uma escritora que leva uma vida feliz em San Francisco, até que se divorcia de seu marido. Triste e deprimida, ela decide mudar radicalmente de vida e compra uma chácara na Toscana, para descansar e poder terminar em paz seu novo texto. Porém enquanto ela cuida da reforma de sua nova casa acaba conhecendo um novo homem, que reacende sua paixão. (Filmow)

A nota no Filmow me desanimou bastante, tem apenas 3.7, e minha autorregra, ridícula por sinal, é de não assistir nenhum filme abaixo de 4, mas a sinopse me chamou a atenção e eu preferi arriscar. Arriscar de vez em quando é bom. Inclusive, é uma das coisas que estou fazendo bastante ultimamente e também umas das coisas de que o filme trata.

Frances, como vocês já leram na sinopse, tem uma grande decepção amorosa e numa tentativa de esquecer, se divertir e enfim, passar o tempo, vai parar na Itália. Acontece que ela acaba não "passando o tempo" sem pensar nisso, pelo contrário, ela pensa no que lhe aconteceu e sobre as novas circunstâncias de sua vida mais do que nunca. E isso foi sim divertido: Frances conhece pessoas novas, uma nova língua, vivencia a cultura e aprende a acreditar novamente no amor, sofre também, mas, enfim, normal. Piegas, não é? Nem tanto.

A maior mensagem do filme é: e o que fazer enquanto o que eu quero não chega, não acontece? Seja um amor, seja um emprego, seja um livro que você comprou online. O que fazer quando seu sonho, seus planos, seus desejos... parecem nunca chegar? Como passar o tempo sem pensar nisso? Como ver o tempo literalmente passando, em você, na sua pele (seu corpo, sua idade, suas chances...) e não se desesperar? É desse meio tempo, que chamo de entretempo, entre o velho e o novo (será que vai chegar?) tempo, que fala o filme: sobre viver esse tempo, que se chama agora. Não é nada como Carpe Diem ou coisa assim (não acredito muito nisso), é sobre Esperança.

Esperança do verbo esperar. Ninguém mais quer esperar (eu mesma não gosto muito), a gente quer aqui e agora, pra amanhã, para ontem! E esperança não se trata disso.

Sob o sol da toscana você aprende a não deixar de acreditar nas coisas bobas

Essas coisas que quase todo mundo quer, e mesmo que não pense tanto, e mesmo que não planeje, sei lá, um dia a gente pensa nessas coisas: quando eu tiver minha casa... se eu tiver um filho... eu queria uma pessoa que fosse... E enfim, não deixar de pensar nessas coisas, mas, o mais importante, não deixar que o entusiasmo se transforme numa doença, num TOC, deixar que o entusiasmo seja apenas entusiasmo, aquela alegria pelo que pode acontecer, mas que não te paralisa nem te fecha para outras possibilidades.

ignorem o erro do tradutor rs
Sob o sol da Toscana você aprende que tem coisas que realmente matam as pessoas

E não são as decepções: elas passam. Mas não mata. Maltrata, dói, mas não mata.




Sob o sol da Toscana não é permitido ter medo

O que te mata, quase todos os dias, é o medo. Ok, ele te protege também, todo medo tem uma certa razão, mas o medo não pode paralisar. Se há como correr, corra. Se o assaltante ainda não chegou em você e não está com um revólver, corra (essa sou eu). Se você ainda quer fazer as coisas acontecerem, pare de ter medo de fazê-las acontecer, pare de ter medo caso elas não aconteçam também. E esta sou eu falando isso para mim mesma.




Sob o sol da Toscana nós fazemos trilhos

Senhora, entre Áustria e Itália há uma região dos Alpes chamada Semmering. É uma área muito alta na montanha e muito íngreme. Eles construíram um trilho de trem nos Alpes ligando Viena a Veneza. Eles construíram o trilho antes de existir um trem para percorrê-lo. Eles construíram porque sabiam que um dia... o trem viria.
Enquanto vivemos o entretempo o que fazer? Faça os trilhos. Um dia o trem vem. E a gente não sabe como ele vai ser, nós não sabemos como virá. Um dia ele vem. E se queremos que ele passe por nós precisamos deixar o caminho pronto. Não adianta ficar procurando e esperando o trem chegar se nem sequer há trilhos para que eles passem. Não há por que ter pressa e neste caso nem é inteligente.

Sob o sol da Toscana deixamos as joaninhas pousarem

Quando eu era uma garotinha eu passava horas procurando joaninhas, e então cansava e adormecia na grama. Quando eu acordava, elas estavam em cima de mim.
Deu pra entender, não é? Da mesma forma como não é possível que um trem passe por onde não há trilhos, também não é muito inteligente ficar caçando joaninhas, borboletas na barriga, enfim, qualquer inseto minúsculo, se você não é botânico ou ecólogo, até nestes casos as melhores coisas acontecem quando menos se espera. As joaninhas chegam.

É como esperar uma encomenda. Você fez a compra. Você pode ter um código de rastreio, e quando você o tem e fica ansioso fica o tempo todo indo ver se está próximo, se já saiu, se já chegou. Abrir a porta para o carteiro sem estar esperando por ele é uma das emoções mais geniais que se pode ter! Você fica alegre por uma coisa que você até sabia que ia acontecer (pelo menos espera-se que sim, não vamos acabar com a poesia da minha analogia por questões literais da vida prática), mas tinha esquecido, sei lá, "vai chegar". Chega. Chegou! É assim. O que quer que seja: um amor, um amigo, uma viagem... Um dia chega. Chega se você fizer a compra e pagar. Chega se preparar os trilhos. Chega se não ficar se torturando o tempo todo caçando joaninhas. Chega.


Não vou escrever nada sobre essa cena, mas eu me emocionei.

Trailler:



Um comentário:

Vanessa Carneiro disse...

Esse filme é ótimo mesmo! <3